Análise Anime/Mangá Dicas

[Crítica] – Shigatsu wa Kimi no Uso

postado por Pedro Lasneaux

A balada do amor e da vida em traços animados.

O critico que vos fala, como dito em outras análises, trocou boa parte das séries que via por animações igualmente seriadas, por terem essas um formato mais dinâmico e menos preso a regras de temporada e hiatos, com histórias curtas e hermeticamente fechadas, com episódios de no máximo 25 minutos que se pode matar em uma semana ou menos mantendo uma média de 3 episodios por dia. Porém, como em toda área do entretenimento, nem tudo são flores. Por mais agradável que seja o formato, qualquer pessoa acaba entrando em contato com histórias de conteúdo duvidoso. Estava eu emendando obras não tão boas porém muito recomendadas pelos mais diversos fãs, e como tinha voltado a essa vida a pouco, acreditava ser um julgamento de confiança, no mínimo. Porém a sensação de vazio, de que uma que fazia alguns meses que não entrava em contato com uma obra impactante (a ultima tinha sido Fate/Stay Night) apenas aumentava; até que vi recomendações para um tal de Your Lie in April, no original Shigatsu wa Kimi no Uso. Mal sabia eu que estaria diante de uma obra prima, de algo único que só a animação poderia alcançar.

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A série animada narra a história de Kousei Arima, antes conhecido como o metrônomo humano, um pianista brilhante pela exatidão e perfeição que tocava obras clássicas tal como queriam seus compositores, que caiu em total desgraça após a morte da mãe, incapaz de tocar por não ouvir as notas do piano; e como ele conheceu a jovem violinista Kaori Myazono sob cerejeiras floridas, pessoa que mudou sua vida para sempre.

E aqui abro um parêntese para falar: seria impossível que Shigatsu tivesse a

força que tem se fosse feito em outro meio que não a animação. A série é simplemesmente brilhante no uso técnico, com misturas entre CGI, animação tradicional e inclusive técnicas clássicas de pintura, como a aquarela, para entregar um trabalho belíssimo e retratar a força da musica e dos sentimentos dos atores em 2D . Nessa sinfonia de imagem e som combinados, a cor ganha um destaque especial, sendo a grande solista e um verdadeiro personagem a parte, em uma verdadeira dança entre o opaco e o calor das cores mais gritantes, principalmente o azul e o amarelo, dando o tom emocional da obra. O resultado não poderia ser mais poético e arrebatador, a animação é envolvente, fluida, realista muito das vezes, a ponto do espectador simplesmente esquecer que se trata de uma animação e personagens desenhados ali.

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E é esse um dos temas principais da mesma: o poder das emoções quando aliadas a arte, no caso, a musica. O que passa no coração do artista fica claro na execução do trabalho, e ele é responsável pelo impacto que essa tem para com os outros. Por mais que fosse um perfeccionista, Kousei teve um impacto gigantesco em outros jovens pianistas que logo se tornaram seus rivais, especialmente dois deles, sendo uma inspiração, uma meta. O impacto daquilo que fazemos é o segundo ponto temático da obra, especialmente profundo na relação entre Kousei e Kaori, a alma da obra, assim como nas relações no grupo de amigos principal. Os temas, no entanto, não param na força e beleza da arte. Outras linhas temáticas abordadas de forma bem realista são o abuso moral infantil, o peso da sociedade competitiva, a efemeridade da vida e a descoberta do amor.

Shigatsu não deixa de ser um romance bem agridoce, ter seus momentos de comédia (sendo esses algumas vezes fora do tom da obra), unindo tragédia e poesia em verdadeiros tour de force que ocorrem episódio por episódio. A capacidade ao mesmo tempo de encantar e emocionar o

espectador e deixá-lo na ponta da poltrona é, talvez, mais uma das notas únicas da obra. Entretanto, tal impacto não seria possível se a mesma não reunisse uma excelente fauna de personagens e sem um investimento pesado em seu desenvolvimento (embora esse não seja uniforme, alguns personagens simplesmente continuam sempre do mesmo jeito). Além da dupla protagonista, valem os aplausos para a construção da amiga de infância de Kousei, Tsubaki e dos seus rivais supracitados, Takeshi e Emi,  existindo ao longo da narrativa um cuidado especial em mostrar os seus estados emocionais enquanto enfrentam novos desafios e dilemas, assim como seus fantasmas do passado, em uma verdadeira ode ao chamado pelos americanos de “comming to age” (ou amadurecimento) na jornada mais dura que existe, a do autoconhecimento.

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Por fim, talvez tenha sido incapaz de colocar em palavras tudo que senti e tudo de bom que Shigatsu wa Kimi no Uso contém. A beleza da obra está justamente em mostrar a força que as manifestações artísticas tem na vida de pessoas comuns, em misturar a poesia as agruras da vida e permitir com que muitos de nós sonhem acordados. É uma verdadeira jornada emocional que tem a capacidade de arrancar lágrimas dos mais frios e deixar o coração dos mais sensíveis totalmente em pedaços. Porém, trata da arte como um trabalho de arte por si só, é um grito da industria de animação japonesa, representado aqui por um estúdio ultra comercial geralmente despreocupado com experimentos estéticos (apesar de nunca deixar a desejar no que tange a animação), o A1 – Pictures,  de que sim, aqui no oriente se faz arte de primeira qualidade, aqui vendemos obras primas universais para o resto do mundo.

Shigatsu sem sombra de dúvida é a prova viva de que a animação é uma expressão artística tão gloriosa e apaixonante como as demais, é movimento, sentimento e, em especial, vida, uma vida pulsante, vibrante. O amor pela animação, como todo grande amor, começa pequena, começa sem nem se saber porque se ama, apenas é uma atração. Porém quando o sentimento amadurece e finalmente o amante descobre tudo que ela pode oferecer, se torna paixão pra vida inteira. Enquanto existirem corações cheios de paixão, a animação será, sem dúvidas, uma arte imortal.

PS: O Crunchyroll disponibiliza o anime de graça, e provavelmente será disponibilizado em breve na Netflix, uma vez que está disponível nessa rede nos EUA. 

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

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