Análise Séries

[Critica]- Stranger Things

postado por Pedro Lasneaux

A nova série da Netflix fala ao coração nostálgico em alto e bom som: os anos 80 vivem!

O que falar dos anos 80? Difícil até saber por onde começar. Foi uma época de tão grande efervescência cultural e social que é impossível definir em poucas palavras o que marcou mais. Do surgimento dos Yuppies e sua  ganância em Wall Street a derrocada dos regimes comunistas na Europa; do boom do rock farofa ao surgimento do pop moderno com Madonna, Michael Jackson e Prince; da pandemia de AIDS a evolução tecnológica vertiginosa devido a corrida armamentista… são muitos marcos. Porém, no cinema, a década ficou marcada pelo inicio do reinado dos Blockbusters, dos filmes voltados ao público infanto juvenil, dos filmes de brucutus e das produções de terror de baixíssimo orçamento, o que não impedia deixar todos de cabelos em pé. É muito fácil hoje apontar o que fez a década na sétima arte, e é inegável falar o impacto que essa década tem até hoje. Stranger Things, nova série da Netflix, é a prova viva de que, três décadas depois, os anos 80 vivem.

5436270.jpg-r_x_600-f_jpg-q_x-xxyxx

Ao narrar a história de como o desaparecimento de um garoto numa pequena cidade americana e o surgimento de fenômenos sobrenaturais e conspirações governamentais viram de ponta cabeça o cotidiano de algumas pessoas que ali vivem (a família do garoto, seus amigos e o delegado local, principalmente), a série é uma verdadeira ode a esse bom e velho cinema. A obra é um verdadeiro amálgama de grandes sucessos da época. Para criar o clima de terror sci-fi sobrenatural temos referencias a Poltergeist (1983), a franquia Alien, Akira (1988) e filmes de diretores como Wes Craven e John Carpenter (especialmente Hora do Pesadelo e A Coisa de Outro Mundo). A dinâmica dos personagens mirins remete a Goonies (1985), Conta Comigo (1986) e ET (1982). A subtrama adolescente tem diálogos dignos de obras de John Hughes e situações que remetem a Namorada de Aluguel (1987). Tudo isso com uma roupagem original montada em um ritmo frenético que prende o espectador da primeira a ultima cena. A capacidade criar um amálgama que é muito mais que uma grande reverencia, mas sim algo com alma própria é um mérito brilhante da equipe de roteiristas e da direção dos Irmãos Duffer. Claro que existem referências a outras obras mais modernas ou icônicas da cultura pop, porém o clima de Sessão da Tarde evidente ao longo da obra é o que mais atrai.

Porém, as referencias não param apenas na temática, são igualmente estéticas. A parte técnica captura as cores e os enquadramentos da época de uma forma belíssima, parece que tudo foi filmado com equipamento da época. Vale salientar aqui o excelente trabalho artístico das equipes de cenário e figurino que é simplesmente brilhante, dos carros velhos as roupas e penteados extravagantes, tudo é minuciosamente pensado para colocar o expectador em uma verdadeira maquina do tempo, assim como executado com um esmero absurdo, dignos de aplausos. Por fim, temos a brilhante trilha sonora incidental, marcada pelo uso ostensivo de sintetizadores bem ao estilo dos filmes de terror da época, que se torna uma verdadeira parte da narrativa, demonstrando com muita clareza o tom da cena e dos sentimentos dos personagens. Essa é complementada por musicas de bandas como The Clash, Jefferson Airplane, Toto, Foreigner e tantas outras, um aperitivo delicioso para amantes do bom e velho rock.

4793-300523

As atuações também tem grande destaque. O elenco infantil é afinado, carismático e tem uma química brilhante em cena, passando realmente a sensação de que aqueles atores são amigos de longa data que se veem todo dia para jogar aquele RPG de mesa. Sim, os atores capturaram bem o espírito nerd de seus personagens e também passam essa sensação que são versados no nerd Power na vida real. No entanto, em destaque temos a jovem Millie Brown, interprete de Eleven, uma misteriosa garota de cabelos raspados, que rouba totalmente a cena com uma presença notável e uma atuação literalmente poderosa. Quanto aos adultos, temos Wynona Rider fazendo um retorno as telas belíssimo, mostrando todas as dores e desespero de uma mãe em busca de seu filho, em uma atuação digna de todos os prêmios da temporada; e o excelente David Harbour como o delegado em decadência que se vê pessoalmente envolvido nos mistérios, outra bela atuação.

Enfim, Stranger Things é, sem duvidas, mais um acerto da Netflix. Da produção caprichada ao roteiro envolvente, passando pelo excelente casting e o formato certeiro de oito episódios que impedem que a trama se disperse, é uma verdadeira joia rara em tempos que o público de TV está sedento por coisas novas e histórias cada vez mais cativantes. Por fim, é um ensaio de nostalgia, um estudo do que é ser nerd e um retrato fidedigno do que eram os anos 80, uma obra tão intensa quanto a época que retrata. Mostra que essa década está viva na imaginação de muitos e fala diretamente ao coração algo que todos já sabiam: ela é eterna. E mais, graças a esse tipo de produto, pode voltar a hora que bem entender.

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

Ei! Deixe seu comentário