Análise Anime/Mangá

[Crítica] Fate/Zero e Fate/Stay Night- Unlimited Blade Works

postado por Pedro Lasneaux

Sobre humanos e heróis

A ideia de crossover não surgiu nos tempos contemporâneos, e remonta a literatura do século XIX, consistindo, basicamente, em colocar personagem de universos e histórias diversas compartilhando de situações em comum. Normalmente envolviam mitos e lendas antigas, como forma, inclusive, de evitar problemas com questões envolvendo direitos autorais e propriedades intelectuais. É um exercício de imaginação que sempre cativou os contadores de história, que podiam trabalhar com liberdade com suas influencias e obras favoritas; assim como com o público, que se encantava com o choque de universos distintos. Obviamente, com o passar do tempo, as novas mídias passaram a encampar essas histórias, mantendo sempre grande sucesso, mas foi nos quadrinhos e nas animações que o conceito de crossover melhor floresceu, e, cada vez mais, universos ficcionais compartilhados passaram a existir e a se tornar um lugar comum frente ao público. Com o advento da internet e da possibilidade de debates em tempo real, passou a desenvolver suas próprias teorias em possíveis duelos de personagens de diferentes universos, usando e abusando de argumentos, inclusive com base cientifica e das mais loucas elucubrações para provar seu ponto.

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Nessa toada de desenvolver crossovers já no séc XXI que a empresa japonesa Type Moon criou um jogo de telltale chamado Fate/Stay Night. A proposta era simples: narrar a história de Shirou, um jovem que se vê envolvido em uma disputa de magos pelo mitológico Santo Graal, item que pode conceder qualquer desejo. Porém essa disputa é feita através da convocação de antigos espíritos heroicos de sete classes diferentes (bárbaro, lanceiro, arqueiro, sabre/espadachim, cavaleiro, feiticeiro e assassino) que deverão lutar entre si até a morte, como num grande RPG. O crossover surge ai: os espíritos heroicos são celebres figuras mitológicas, ficcionais ou não, tais como Rei Artur, Alexandre o Grande e Gilgamesh, que usam de suas habilidades nesse Battle Royale de sangue e sofrimento. E, a partir das decisões que você toma para que o personagem principal,a história pode ter três desenvolvimentos diferentes (essas escolhas giram em torno, basicamente, de quem você escolhe como interesse romântico do mesmo). Obviamente o jogo foi um sucesso, especialmente por ser voltado a um público adulto e trabalhar com louvor as origens dos personagens mitológicos. Uma adaptação de anime foi feita, porém, pelo já decadente estúdio Deen, o que não agradou nem os jogadores nem o público em geral, especialmente pela sua animação pobre. No entanto, isso não ofuscou o sucesso da Type-Moon, que logo desenvolveu mais jogos com premissas iguais, expandindo seu universo a exaustão.

Como consequência do sucesso natural da franquia, logo uma nova adaptação de anime foi encomendada, dessa vez pelo estúdio UFOTable e com direção e roteiro de Gen Urobuchi (que também criou Madoka Magica). No caso, foi escolhida a trama de Fate/Zero, prequel da história do jogo lançada alguns anos antes como uma série de livros.

O grande destaque da série é a sua capacidade de criar um belo terreno não só para disputas de superpoderes entre os heróis e seus mestres, mas uma verdadeira disputa ideológica. A mesma gira em torno de sete mestres e heróis, cada um deles com suas aspirações, visões de mundo e desejos a serem concedidos.A grande graça é que não existe bem e mal, apenas um confronto de diferentes visões e diferentes objetivos, deixando para o expectador escolher quem lhe agradou mais. No fundo é uma obra extremamente humana , um retrato fidedigno de disputas de poder em que objetivos altruísticos, nobres, egoísticos e até mesmo a falta de qualquer objetivo claro estão em confronto. Além disso, por  mais que estejam ligados aos mestres por um contrato místico, os servos têm grande autonomia de pensar e agir,  e, portanto, não necessariamente têm os mesmos objetivos e seguem a risca seus comandos, o que é um elemento de tensão maior. Ainda é interessante pontuar que os objetivos dos heróis têm intima relação com os mitos que os rodeiam, assim como sua personalidade, demonstrando esmero de Urobuchi na construção da trama.

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Todo esse desenvolvimento ideológico e claro, dos personagens, é o foco da primeira temporada. No entanto, essa tem sérios problemas de ritmo, já que se preocupa mais em debates e diálogos do que desenvolver a real trama, que é disputa pelo Graal. Assim, a pouca ação que a obra tem nesse ínterim parece bem deslocada. Além disso, a distribuição de tempo em tela dos mestres e servos não é muito boa, tendo alguns muito destaque enquanto outros são completamente esquecidos.Entretanto, tudo isso é corrigido na segunda temporada, perfeita por si só. O desenvolvimento de personagem e a ação passam a ter uma relação orgânica e o ritmo se torna acelerado, assim como todos os personagens tem seus momentos de destaque e glória. Urobuchi se mostra um grande mestre dos cliffhangers, cada episódio termina de uma forma mais espetacular que a outra e é praticamente impossível largar a série nesse segundo ponto. Ao chegar no fim, o vazio é inevitável, e a sensação de recompensa de ter visto uma história com personagens fantásticos com um desenvolvimento tão bem feito é certa. Todos têm um peso, falhas e virtudes. Todos têm uma carga de humanidade incrível, e mesmo os heróis questionam o motivo de terem esse status, já que todos falharam no passado e voltaram a viver numa nova era para conseguir aquilo que não tiveram chance.

Não preciso dizer que o sucesso foi estrondoso no Japão e no Ocidente, e todos queriam voltar a ver essa dinâmica de personagens. Saber, uma das servas (cuja real identidade vou manter em segredo), se tornou um verdadeiro ícone da animação japonesa, e não é por menos, já que sintetiza o heroísmo, a humanidade e a carga trágica da história. E claro, os fãs dos jogos queriam ver uma boa adaptação de Fate/Stay Night e esquecer o antigo anime de 2006 . Em 2014 as preces  foram atendidas e o UFOtable trouxe a baila Unlimited Blade Works, adaptação de um dos possíveis desenvolvimentos do jogo e sequencia direta de Fate/Zero, sendo uma versão alternativa da história desenvolvida pelo DEEN anos antes e com envolvimento direto do criador da franquia, Kinoko Nasu.

Assim como seu antecessor, o show teve duas temporadas, e, da mesma feita, a segunda temporada é melhor. A primeira consegue corrigir os erros do Zero, tem muito desenvolvimento de personagem e episódios bem parados, mas consegue aliar isso de melhor maneira com a ação e a trama geral da luta do Graal. Justamente por focar em dois personagens, Shirou e Rin, e seus respectivos servos, e colocando os demais envolvidos na disputa e suas aspirações como um verdadeiro mistério a ser desvendado, se tem um ritmo infinitamente melhor, além de um clima menos pesado, mais jovial e com muitos elementos de coming to age (amadurecimento de personagens jovens, em tradução bem porca).  A segunda temporada consegue colocar o desenvolvimento do personagem no epicentro da ação, e com isso, faz uma combinação orgânica ainda melhor desses dois espectros da obra. E, assim como seu antecessor, temos aqui excelentes debates sobre o que faz um herói e o que é a justiça, desenvolvidos com primor pelo texto. É realmente surpreendente ver uma obra ficcional que coloca um debate maduro e bem desenvolvido como uma das reviravoltas da trama. Além disso, todos os personagens secundários são igualmente desenvolvidos, e, assim como em Zero, todas as suas motivações são meticulosamente explicadas, e, em sua maioria, tem uma personalidade bem desenvolvida. Obviamente, alguns velhos conhecidos do público estão de volta, e é gratificante ver que continuam tão legais quanto sempre foram. É o ápice de uma série que nunca buscou entretenimento puro, mas soube alia-lo com conteúdo e levar esse conteúdo a sério.

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Aqui fica um parágrafo especial para os dois carismáticos protagonistas de UBW. Shirou é aquele personagem que tem tudo pra ser o certinho, o herói perfeito, o chato do plantão, mas não. Apesar do seu inabalável senso moral ele tem falhas, frustrações, tristezas e um desejo inabalável de se tornar uma pessoa melhor. Além disso não é aquele protagonista que sabe tudo, faz tudo e sempre se dá bem; não, ele é muito ruim se comparado aos demais nas habilidades de mágica e luta e sofre revezes interessantes ao longo da trama. Rin é inteligente e corajosa, daquelas que chamam a atenção por poder surpreender em qualquer momento, mas também tem um lado psicológico muito bem desenvolvido, é atrapalhada apesar de habilidosa com a magia (apesar de não ver isso) e tem muita dificuldade para lidar com os próprios sentimentos e emoções, fruto de uma vida solitária. A química entre os dois é fantástica, e tem muito de Harry Potter nela, já que Shirou nada sabe sobre a batalha que se meteu e Rin só entrou nela como forma de honrar sua família, logo é ela quem deve apresentar a lógica dessa disputa tanto para ele quanto para o espectador (tem muito de Hermione Granger em Rin também).

Por fim, vale ressaltar o trabalho técnico do UFOtable que é muito acima da média. A animação nos dois shows é espetacular, é possivelmente, o melhor produto em animação dos últimos anos. Vale ressaltar que o uso de técnicas cinematográficas em Unlimited Blade Works é preciso e incrível, a ação ganha uma fluidez e um impacto muito maiores com elipses, viradas de câmera e um excelente uso de câmera lenta. A trilha sonora também é um show a parte, é empolgante quando tem que ser, é melancólica quando isso é cobrada, realmente dá o clima para a apreciação da narrativa. Isso sem contar as boas aberturas e encerramentos,, sempre com o melhor do J-pop.

O grande mérito do universo Fate, portanto, é justamente essa infusão quase perfeita de batalhas épicas e reflexão. Consegue agradar quem gosta de um bom e velho RPG de mesa com seus personagens e classes,  quem gosta de um bom debate filosófico e humanístico levado com seriedade, quem gosta de boas histórias com bons personagens e trama bem amarrada, fãs de fantasia de uma maneira geral,  fãs de literatura, e claro, fãs de animação, não só japonesa, uma vez que é um trabalho de mestre nesse campo, um verdadeiro marco. A satisfação é garantida e o desejo de ver mais crossovers assim certamente vai acompanhar o espectador por muito tempo.

PS: Não é preciso assistir o Fate/Zero antes do Unlimited Blade Works, esse funciona muito bem por si só e explica todos os conceitos novamente para novos espectadores, pessoalmente acho melhor seguir a ordem natural assistindo o Zero antes, a experiência em UBW é muito melhor com esse background. Ah, as duas séries estão disponíveis no Netflix e Crunchyroll, aproveitem enquanto é tempo.

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

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