Análise Anime/Mangá

[Critica] Puella Magi Madoka Magica

postado por Pedro Lasneaux

Mahou Shoujo em desencanto

Para falar de Puella Magi Madoka Magica preciso primeiramente fazer um nem tão breve histórico sobre o gênero Mahou Shoujo. A tradução já entrega muito sobre o que ele é: garotas mágicas que normalmente usam seus poderes para combater o mal e ajudar aqueles que precisam. É um subgênero do gênero shoujo, que significa garota, apontando o seu público alvo inicial: garotas entre o fim da infância e adolescência; cuja criação é creditada ao pai do mangá e anime Osamu Tezuka e seu Princess Knight (no Brasil A Princesa e o Cavaleiro), lançado ainda na década de 50.

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Credita-se ser o primeiro Maho Shoujo o anime/mangá Sally the Witch, de Misuteru Yokoyama, lançado em 1966 tanto em formato de quadrinhos como televiso (e em preto e branco), que era basicamente uma versão animada das séries americanas A Feiticeira e Genie é um Gênio, contando a simples história de uma garota mágica de outra dimensão que vivia na Terra e ajudava as pessoas com seus problemas cotidianos, bem ao estilo enlatado americano. A série foi um sucesso, ganhando duas temporadas e trazendo interesse ao gênero.

O mesmo ganhou maior credibilidade com o movimento Magnificent 24 de 1969 em que mulheres quadrinistas decidiram tomar de assalto o mercado editorial japonês e finalmente estabelecer o shoujo e seus subgêneros como um de seus maiores filões mercadológicos e elevar as protagonistas femininas como um dos grandes carros chefes da industria do entretenimento japonês, assim como demonstraram que obras voltadas ao público feminino faziam sucesso (algo que DC , Marvel  e Hollywood parecem estar entendendo só agora). Com isso, ocorreu um boom de publicações e animações com essa linha temática, mantendo porém as características do Sally: as garotas mágicas tinham em torno de 12 anos, tinham poderes, os usavam para o bem e eram voltados a garotas pré-adolescentes ou adolescentes.

Já nos anos 70 o gênero se reinventou buscando atrair a atenção de outras faixas etárias e, principalmente, do público masculino. A grande revolução veio com o anime Cuttie Honey (1973), de Go Nagai: ao narrar a história de uma ciborgue super poderosa, introduziu ao gênero super batalhas, frases de efeito, transformações, poderes exagerados, mulheres voluptuosas e outros elementos típicos de animes voltados para o público masculino que o ajudaram a ser um grande sucesso de público, crítica e merchandising, criando uma franquia rentável até os dias de hoje. Ao introduzir a ação e a pancadaria que fazem o nome dos animes no ocidente, Nagai reinventou o gênero: deixou de ser algo de nicho para ser apreciado por uma audiência mais ampla.

Os anos 80 trouxeram o monopólio do estúdio Pierrot (o mesmo de Yu Yu Hakusho) e uma grande inovação ao gênero. Influenciados pelos tokusatsus de Super-Sentai, como Google Five e Changeman, que tomaram conta da TV japonesa à época, o estúdio lançou a tendência das equipes de garotas mágicas, porém, sem grandes produções de sucesso, afinal se vivia a era de ouro do shounen de ação e do mecha com Gundam, Dragon Ball, CDZ e outros. No entanto, a tendência se manteve e teve seu ápice com uma produção de outro estúdio que todos devem conhecer: Sailor Moon, já em 1992. Realmente esse dispensa comentários: foi o primeiro grande anime de sucesso nos EUA e ajudou a consolidar de vez a cultura japonesa no ocidente, mostrou toda a força do gênero para toda sorte de espectadores e claro virou uma grande influencia até hoje, no seu Japão natal e no ocidente (Meninas Super-Poderosas estão ai até hoje pra provar isso). Após isso, o Maho Shoujo voltou a ser um dos grandes carros-chefe de vários estúdios de animação e editoras de mangá, o que levou a uma produção cada vez maior de séries com essa temática sem grandes modificações.

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Bem, até 2011. Eis que surge Puella Magi Madoka Magica, de Akiuki Shinbo e do estúdio Shaft. Mas o que será que o anime trouxe de mais revolucionário que os demais citados? Todos eles mudaram o gênero para sempre, e, claro, tem importância impar na industria do entretenimento não só japonesa, mas mundial. O que o torna a obra objeto dessa crítica tão especial?

Ab initio, vamos para a trama. Madoka é uma garota de colegial japonesa típica de tantos outros animes. Tem suas amigas, sua vida comum, uma família legal. Tudo no entanto, muda, quando ela e sua amiga Sayaka encontram Kyubey, uma criatura mística, e descobrem que as garotas mágicas são reais e lutam contra bruxas, seres que bsucam provocar males aos humanos, como depressão e suicídios. Kyubey lhes oferece um contrato para se tornarem garotas mágicas também, bastando que realizem o maior desejo de seu coração. No entanto,  outra garota mágica chamada Homura busca impedi-las de realizar esse desejo.

De cara não se vê nada revolucionário no anime. Mais eis a sua jogada de mestre. Os dois primeiros episódios, a musica de abertura com J-Pop empolgante e imagens fofas e a musica de encerramento daquele jeito pseudo-melancolico são só distrações. A partir do terceiro episódio a trama ganha tons de terror psicológico. Tem mortes, depressão, muito choro e ganha um caminho bem diferente do que se espera do gênero. É claramente infuenciado pela lenda alemã de Fausto (imortalizado por Johann Wolfgang von Goethe) e a ideia de vender sua alma a um demônio que trará o que você mais deseja, contando com várias referencias a mesma em cenas e e no desenrolar da trama. Além disso, apresenta uma mistura de animação genial entre algo que parece um desenho pueril pintado a crayon e outras técnicas como stop motion nas batalhas contra as bruxas que deixa tudo mais tenso e interessante.

Porém, não seria o primeiro anime de garotas mágicas com temática mais dark. Afinal aonde está essa revolução toda? Bem, a trama toda se desenvolve como uma desconstrução do que é a garota mágica. Durante os anos foram vistas sim diversas revoluções temáticas, mas nunca se questionou o que é ser uma garota mágica antes, e nunca se desvirtuou o seu papel na ficção. Todo seu altruísmo, bondade e maniqueísmo são jogados por terra em Madoka. Ser heroína não é um mar de rosas, escolher fazer um pacto e ver seu maior desejo realizado é o inicio de uma vida de dor, sofrimento e muito sacrifício. Sacrifício esse que não necessariamente traz uma recompensa boa, melhora a vida de alguém; é um sacrifício que pode significar apenas mais dor e tristeza. É uma trama extremamente reflexiva sobre as funções e convenções do gênero anteriormente estabelecidas. E é bem crítica ao superar os velhos conceitos do bem e do mal e colocar o ser humano por trás do mito em cena. Por isso insisti em trazer um pequeno histórico, foi para mostrar que sim, existiram várias mudanças, mas nada tão profundo como a trama de Madoka Magica .

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Apesar dessa subversão temática ele tem uma grande falha em seus personagens. Madoka é chata, chorona e não tem um desenvolvimento  lá muito bom. As outras garotas mágicas que aparecem durante a trama, Mami e Kyoko não despertam grande interesse. Sayaka e Homura são as melhores personagens, mas seu desenvolvimento é exclusivo para apresentar reviravoltas no enredo, apesar de boas e interessantes do ponto de vista psicológico. Kyubey representa uma resistência do maniqueísmo habitual do gênero com sua postura quase psicótica e fria, é um vilão, por mais que vários pensem que não é.

O anime, enfim, subverte a pedra basilar do gênero, tal qual Watchmen fez com os super-heróis e nos leva a seguinte conclusão: não existe beleza em ser garota mágica. Revoluciona por isso, por transformar um modelo de história antes pautado em aventuras do bem contra o mal e tramas surrealistas em algo factível, em um conto sobre responsabilidades, fardos e sem qualquer pingo de heroísmo. É uma história curta, composta de 12 episódios mais um filme, é uma história direta, sem rodeios, que visa tão unicamente estabelecer uma nova leitura sobre o Maho Shoujo, uma leitura sem a magia que o tornou tão célebre e cultuado. No entanto não deixa de ser empolgante, ter ação, cenas de pancadaria e garotas mágicas usando e abusando de super poderes; mas adiciona elementos de reflexão existencialista, psicologia e elementos adultos a uma história que tinha tudo pra ser mais uma produção sem nada especial. E mostrando o desencanto e a dor, faz a maior revolução em 50 anos e dita as novas tendencias no novo século. Se serão seguidas, só o tempo dirá.

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

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