Análise Anime/Mangá

[Critica] Kill la Kill

postado por Pedro Lasneaux

A quintessência do Anime.

Falar sobre Kill la Kill não é uma tarefa fácil para qualquer pessoa. A obra de Hiroyuki Imaishi e Kasuki Nakashima, de inicio simples e clichê ao apresentar Ryuko Matoi em busca de saber quem é o assassino de seu pai e seu confronto com Satsuki Kiryuin, que instituiu uma sociedade tirânica baseada em uniformes que conferem superpoderes a quem usa; logo se mostra uma insana e empolgante viagem a uma multiplicidade temática muito bem feita. Portanto, partir de cada um desses pontos desenvolvidos pelo estúdio Trigger talvez seja o melhor caminho para analisar a obra.

O primeiro ponto a ser abordado são as inspirações do anime, que também passa pelo seu nome. Kill em japonês se pronuncia Kiru, que pode ser matar ou vestir. Assim, em tradução livre, o nome do mesmo pode ser traduzido como Vestida para Matar, além da clara referencia a Kill Bill de Quentin Tarantino. Além disso, a grande inspiração dele passa pelo jogo de palavras entre fashion e fascismo, que em japonês são simplesmente a mesma palavra, fashoo; assim como entre dominação/conquista e uniforme escolar, ambos seifuku.

Assim, temos a primeiro tema:a história se passa em uma sociedade distópica em que as roupas são uma forma de opressão, e quanto melhor a sua roupa, melhor a sua posição social. O que não deixa de ser uma verdade incontestável de nossa sociedade capitalista contemporânea. Sim, há uma opressão inerte ao sistema que incluiu as roupas que usamos, e isso é bem claro: por que preferimos uma marca a outra? Por que algumas marcas como Lacoste, Tommy e Nike são sinônimos de ostentação? Por que em uma entrevista de emprego damos preferência a quem se veste melhor? Vivemos uma evidente ditadura de roupas e marcas, no fundo elas são um fator de segregação social. Obviamente, Kill la Kill faz uma alegoria ao tema, usando uniformes super-poderosos como o padrão de divisão social. Porém, quem pode usar esses uniformes? Entra ai a segunda linha temática.

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A divisão da sociedade fascista que é mostrada no anime é baseada no desempenho escolar dos estudantes da Academia Honnouji (comandada do por Satsuki), em que quanto melhor o aluno, melhor o seu uniforme e, portanto, melhor a posição social alcançada por ele e sua família. É o fenômeno da sociedade disciplinar baseado na escola, algo descrito pelo filósofo e sociólogo francês Michel Foucault em várias de suas obras. Segundo ele, a escola é, desde a virada do século XVIII ao século XIX, a instituição disciplinar por excelência, onde as atividades ali desenvolvidas criam indivíduos dóceis, disciplinados e condescendentes com o poder político dominante, através de um processo constante de punições e recompensas baseadas no desempenho do estudante. Tudo isso fica bem claro em Kill la Kill: a recompensa é o uniforme, a ascensão social e uma maior liberdade dentro do espaço escolar; já aqueles que não conseguem isso são submetidos a um sistema disciplinar militar extremamente rígido com nenhuma liberdade, além de ter que viver na miséria. É interessante como o anime consegue introduzir ação e pancadaria nesse cenário e, ao mesmo tempo, ser extremamente sóbrio. Isso dá um destaque imenso a personagem de Satsuki, que se torna a mente genial por trás desse desenho social, inclusive, subvertendo-o quando mais lhe interessa.

Por falar em ação, temos a terceira linha temática de Kill la Kill: é uma grande homenagem e ao mesmo tempo, paródia, da industria de animes. Ryuko e Satsuki são as personagens femininas mais bad-ass da industria do entretimento japonês. Elas vestem os uniformes mais poderosos da história, os Kamui Senketsu e Junketsu, respectivamente; para protagonizar as cenas de pancadaria mais insanas e visualmente impecáveis do show, sempre acompanhadas de uma trilha sonora que beira o sublime (não tem alma viva que se empolgue quando sobe DON’T LOSE YOUR WAAAAAAAAAAY; além, é claro, das inebriantes aberturas Sirius e Ambiguous). É uma subversão do mahou shoujo dos anos 90 e uma grande homenagem ao shounen de ação dos anos 80. A melhor amiga de Ryuko, Mako, representa o melhor  do humor totalmente nonsense dos animes de escola e é uma das melhores personagens da obra. O anime em nenhum momento se leva a sério: apesar de tratar de temas relevantes, a história se desenvolve a partir de situações completamente fora da realidade, com cenas de ação muito, mas muito over the top.

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Isso tudo acompanhado de uma animação de altíssimo nível, porém propositadamente piorada para as cenas de comédia. Por ser uma grande celebração do anime, tem pencas de referencias: os uniformes poderosos tem o nome de Goku, Satsuki é auxiliada pela Elite dos Quatro (que, por falar nisso, merecem aplausos, são excelentes personagens); os Kamui são clara referencia a Cavaleiro do Zodíaco (assim como a dinâmica de lutas), e tantas outras que não podem ser citadas sob pena de spoiler. Porém, as referencias não param em animes: várias séries japonesas dos anos 80 e 90 são homenageadas, além é claro de referencias a obras ocidentais, como 1984, Revolução dos Bichos e Pulp Fiction. É uma obra visual extremamente empolgante, sem qualquer limite, que se desenvolve em um ritmo extremamente acelerado, cheio de reviravoltas inteligentes e que prende do primeiro ao ultimo capitulo (são 25 no total).

Existem outros temas que podem ser citados: o anime faz uma crítica a relação da industria de animes e nudez, a hipocrisia dos estúdios em colocar nuances de sexualidade e ao mesmo tempo condená-las. Kill la Kill defende, pelo contrário,que a nudez seja naturalizada, não condenada, seja vista como uma forma de libertação e empoderamento do personagem, especialmente das personagens femininas (quanto menor o uniforme, mais fortes ficam Ryuko e Satsuki). Além disso, ela fez uma bela alegoria a própria história japonesa, referenciando a aproximação do país com o Ocidente no fim do século XIX.

Enfim, Kill la Kill, com seu desenvolvimento narrativos e estrutura de episódios fala com nossa criança de 12 anos interior e, de certa forma, sintetiza porque se cultua tanto o anime. É a quintessência dessa forma de arte disseminada pelo mundo, com seus exageros, loucura, empolgação e claro, mensagens. Aí entra a grande genialidade da obra: ele não se contenta em divertir, empolgar, explodir cabeças; propõe, ao mesmo tempo, um estudo social relevante, através de alegorias e metáforas que só as melhores obras de distopia podem oferecer. É o anime na sua mais pura forma, é entretenimento, é insano, e tem lógica e reflexão, por mais distorcida que essa seja.  E pessoalmente, isso foi o que me trouxe de volta aos animes após anos ignorando sua existência e preso sempre aos mesmos clássicos. Kill la Kill me mostrou com todas as cores, sons e loucura o quanto gosto disso tudo e certamente é uma boa pedida pra quem esteve tanto tempo longe.

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

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