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[Crítica] A Grande Aposta

postado por Pedro Lasneaux

A Lógica do Absurdo

Depois da fatídica partida entre Brasil e Alemanha na Copa do Mundo de 2014 foi noticiada a história de um árabe que ganhou sozinho o equivalente a cem mil reais por apostar no outrora absurdo placar de 7×1 que acabou ocorrendo. Não precisa ser médium, vidente ou paranormal para saber a reação dos oficiais de apostas ao entrarem em contato com o palpite desse singular personagem da vida real. Certamente riram do mesmo apostar em algo tão absurdo, apontaram sua total falta de conhecimento futebolístico, foi com certeza a grande piada do século, afinal, esse placar era, numa perspectiva lógica, impossível. Porém, o imponderável aconteceu, e o ridicularizado tornou-se o grande vencedor. Esse pequeno exercício ilustra algo que foi mostrado no filme a Grande Aposta.

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Inspirado em uma história real, The Big Short (no original), narra a história de Michael Burry (Christan Bale), dono de um fundo financeiro que após extensas pesquisas descobre que o mercado imobiliário americano iria quebrar devido ao imenso numero de inadimplências quanto ao pagamento de hipotecas; o que o leva a investir todo o dinheiro de seu fundo em títulos de seguro de inadimplência de hipotecas. Apesar de taxado de louco pelos investidores que nele acreditaram e ridicularizado pelos funcionários dos bancos por onde passou, seu estudo despertou o interesse Jared Vennet (Ryan Gosling), inescrupuloso consultor financeiro que acredita no estudo de Burry e vê nele uma chance de enriquecer, vendendo a ideia de quebra do mercado a um dono de fundo de investimento desiludido com o sistema (interpretado por Steve Carrel) e dois economistas recém saídos da faculdade(John Magaro e Finn Wittrock).

Bem, como se sabe, o mercado imobiliário quebrou em 2008, gerando a maior crise econômica desde 1929. Ou seja, o que era absurdo e ridículo para todos que interagiam com os personagens tornou-se a regra, e no fim, os ridicularizados ganharam os frutos de seu esforço: todos eles se tornaram milionários. O grande mérito do filme é brincar o tempo todo com o conceito de absurdo, porém o inverte a partir do que a história conta: aqueles que apostam contra o sistema, loucos para os demais, se tornam os sensatos; e o sistema, que tenta se manter com base em uma estrutura fadada ao fracasso, se torna o louco.

O filme não mede esforços em mostrar todas as artimanhas e abusos que os agentes do mercado financeiro de Wall Street lançaram mão para conseguir manter o mercado do jeito que estava funcionando, mesmo que isso significasse o fim do próprio mercado; além, é claro das fraudes e falcatruas que impediram a crise de surgir um ano antes, e claro, o lucro auferido por esses agentes pela inocência e superendividamento das pessoas comuns, conseguido através da venda de planos de investimento que prometem muito e não geram nenhum retorno e linhas de crédito sem limites. É um verdadeiro tapa na cara do mercado financeiro, exibindo a sujeira e as feridas ainda abertas da crise, e como todos os agentes envolvidos nessa grande fraude sustentada por vidas humanas continuam impunes.

Adam McKay trata desse tema árido e cheio de linguagem técnica com primor. A narrativa é de um dinamismo sem igual, marcado por um trabalho de edição brilhante de Hank Corwin, uma mistura de estilo frenética que combina com primor o documentário com o melhor do mestre Scorcese. McKay abusa dos recursos de linguagem cinematográfica de forma a aproximar o espectador com o tema que tenta debater, criando um verdadeiro diálogo sustentado com várias quebras de quarta parede, uso de imagens reais e por acompanhar de perto o dia a dia dos personagens em meio ao olho do furacao. Sobre as quebras, essas merecem um destaque a parte: ora servem para mostrar que se trata de um filme e que as coisas não aconteceram daquele jeito que está sendo contada; ora se configuram de gags visuais e sonoras para amplificar o absurdo da situação descrita, ora são verdadeiros parênteses no filme para que Margot Robbie, Anthony Bourdain e Selena Gomez nos expliquem termos técnicos de maneira tragável. Quanto as atuações, destaca-se o excelente trabalho de Bale e Carrell, que mostram o inferno dantesco que seus personagens passaram (o primeiro por apostar contra o mercado; o segundo por descobrir quão sujo o mercado é).

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Antes diretor de trabalhos cômicos de conteúdo duvidoso, McKay faz uma grande obra de forte impacto. Além de um exercicio de cinematografia de gênio, é uma obra questionadora, que não usa de panos quentes, apontando os culpados pela crise e como todos os abusos geraram problemas sociais ainda maiores. É uma obra crítica em essência, algo que o cinema americano pouco tem feito no meio de explosões e blockbusters milionários. É também um estudo sobre o que é o absurdo. É esse agir contra o status quo, o que todos consideram como certo ou tentar manter o certo a todo custo? É ser questionador ou conservador? É arriscar ou se manter na área de conforto? O que define o que é o absurdo? Essas respostas o espectador é quem deverá chegar ao fim do filme, ao refletir sobre ele. O filme é um grande instrumento crítico que permite ao mesmo chegar as próprias respostas. Eis o grande legado da obra. Afinal o absurdo depende de quem o interpreta. E de quem, no fim, vai rir ou chorar por ultimo.

Sobre o autor

Pedro Lasneaux

Crítico
Conhecido como Pedrao e Lax. Apaixonado por cinema, quadrinhos, filosofia, literatura,desenhos animados e anime, quer ser o novo José Wilker e comentar o Oscar na TV.

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